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Sobre o Volunturismo

Volunturismo | João Barrigudo

O volunturismo tem sido apontado como uma das principais tendências de viagem. Isto, porque o viajante e o turista já não querem férias, querem experiências. Ou seja, querem sentir e viver local, sentir-se úteis e até ajudar. É nesse sentido que nasce o volunturismo, que une assim voluntariado e turismo.
A tendência é tão grande que há já várias agências de viagem que se dedicam a promover o volunturismo, com pacotes de viagem (sim, leram bem, pacotes), que incluem passar duas semanas a trabalhar num orfanato, com voo, estadia e comida incluídas.
Ora, se no papel isso é tudo muito lindo, como é que funcionará na prática? Será caso para dizer que de boas intenções está o inferno cheio?

 

Voluntariado e turismo

Antes de fazer volunturismo, tenha isto em conta:

1. Volunturismo com pessoas envolvidas

Sobretudo, volunturismo com crianças envolvidas. É que por muito bonita que seja a nossa vontade de ajudar, que pode ser, lembre-se que enquanto vai lá passar uma temporada, aquelas pessoas e crianças vivem ali, naquela realidade. Isso significa que não pode chegar com o espírito de mudar tudo e criticar meio mundo, quando umas semanas ou meses depois está de volta à comodidade da sua casa.
Ao mesmo tempo, pense também que se vai estar com pessoas, laços serão criados. Assim sendo, e sobretudo com crianças, tenha também em conta o impacto que a sua partida poderá ter na vida dos mais vulneráveis.

2. Escolha bem a associação

Ora, não é porque falamos de organizações não governamentais ou voluntariado, que o mundo vira cor-de-rosa, purpurinas e unicórnios. Aceite: há gente (de merda e) aproveitadora em todo o lado. Confirme sempre, se o local para onde vai é sério.
Na minha última viagem ao Camboja (2018), havia imensa publicidade alertando contra este tipo de turismo, sobretudo a visitas de turistas a orfanatos. A imagem era bem clara: crianças em vitrines de museus.

Um estudo recente da Unicef revela como este tipo de instituição cresceu que nem cogumelos no país, indicando que dois em cada três órfãos, não o eram. Eram, sim, crianças de famílias pobres, que eram “recrutadas” para este tipo de trabalho. O mesmo estudo fala de situações similares no Sri Lanka, na Indonésia e na Libéria, entre outros.
Notinha: crianças que em vez de ir à escola, estão ali.

Ir visitar para dar uns trocos e uns doces não é correcto. E, pior ainda, quando está alimentar instituições que se aproveitam destes esquemas,  para conseguir dinheiro.

 

3. Tirar trabalho aos outros

Além dos orfanatos, outro tipo de volunturismo comum, diz respeito à construção de escolas, clínicas, etc. Tudo muito lindo, mas isso significa que o voluntário paga (para trabalhar) à agência, que consequentemente aproveita a mão de obra grátis, em vez de contratar e de PAGAR a trabalhadores locais.

 

4. Vai fazer voluntariado por si ou pelos outros?

Há várias formas de ajudar os outros e não precisa de ir propriamente para uma favela no Quénia para o fazer – nada contra, se o faz. Contudo, pense se a sua verdadeira vontade parte de um espírito de missão ou se vai lá mais pelas fotos com criancinhas e para se sentir melhor consigo.
Nesse sentido, pense de que modo pode realmente ajudar e fazer a diferença.

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Resumindo (e chamem-me cínica),

mas infelizmente, muitas das atividades de volunturismo parecem mais feitas para beneficiar o viajante e a sua ânsia de “experiência real” e de “sentir algo real” e se sentir bem; do que as comunidades envolvidas.

Obviamente que há gente boa e até gente muito generosa que o faz, contudo pensem bem e informem-se bem com quem o fazem e como. Não será por vezes melhor doar esse dinheiro a uma agência local? Ou depois de viajar até um sítio e ver as necessidades, colectar bens e produtos e enviar?

Contudo, se o vão fazer, façam-no bem: informem-se, falem com quem está no terreno e contactem instituições oficiais.

 

 

Fotos do Instagram Barbie Savior