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Viajar no Irão

Viajar no Irão: 10 perguntas e 10 respostas

Quando anunciei que ia viajar no Irão em 2014, foi um festival de reacções! Entre o “mas porquê?”, ao “tem cuidado”, passando pelo “tem juízo”, houve até quem dissesse “não vás”.

Aqui estão 10 das perguntas que mais me fizeram e espero que com isto, possa desmistificar um pouco e encorajar mais gente a planear uma viagem ao Irão. Sobretudo mulheres viajantes.

1. Porquê viajar para o Irão?

O Irão é o berço da cultura persa e um país que vale a pena ser explorado e vivido. Há arquitectura variada, mesquitas incríveis, palácios luxuosos e uma grande variedade de paisagens, desde montanhas, deserto ou praia. Segundo um taxista de Teerão, até existem uns castelos portugueses no sul. Isso e dos azulejos mais lindos que vi!

O meu roteiro foi: Teerão > Shiraz > Persapolis > Esfahan > Yazd > Teerão

Além do lado histórico e cultural, o Irão de hoje é também um mistério para nós. Logo, uma viagem ao Irão dá-nos a oportunidade de ver com os nossos olhos e avaliar a situação do país e tirarmos as nossas conclusões.

História parvinha: Lembram-se de Homeland? Nunca a consegui ver. Logo nos primeiros episódios, a Claire Danes ia para o Irão e era gente enforcada a cada esquina. Coisa que nunca vi – nem existe. O tal realismo que a série tanto apregoava morreu ali para mim e não vi mais nenhum episódio.

2. É seguro viajar para o Irão?

O país é muito seguro e não sentimos qualquer tipo de ameaça ou temor. As pessoas são muito gentis e sinceramente não experimentei (nem  escutei) qualquer história sobre roubos, raptos ou outros episódios de violência. Pareceu-me que existem uns quantos mitos, do tipo “dizem que…”. O único momento mais particular é o Ashura.

Além disso, as pessoas são muito honestas. O dinheiro é uma confusão, pois continuam a usar a velha moeda e uma nova. Imaginem que em Portugal usavam euros e escudos ao mesmo tempo. Acrescentem a isso o facto de no Irão ser tudo com mais zeros. Ou seja: o cenário ideal para conseguir “sacar uns dinheiros” a turistas. Nada. Se nos enganávamos (e enganámo-noss MUITAS vezes), as pessoas devolviam o dinheiro.

3. O dinheiro no Irão? Viajar no Irão é caro?

Como dizia antes, eles usam duas moedas: a nota de maior valor é a de um milhão de riales – a moeda oficial. Porém, há ainda preços em tomans, a moeda antiga.

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Era rica e não sabia!

Quanto aos preços no Irão, apesar de haver coisas muito baratas, como os museus, os transportes ou a comida, os hotéis no Irão são caros.  Como não recebem muitos turistas, não só a informação em inglês é bastante limitada, como também os hostels ou conceitos de alojamento barato no Irão não existem! Além disso, um hotel no Irão, mesmo caro, pode ser uma coisinha rasca. Há que estar preparado para pagar 20 dólares por um quarto sem casa-de-banho ou pequeno-almoço – e isto não acontece apenas na capital.

4. E ser mulher e viajar no Irão?

Pois, ser mulher no Irão nem sempre é fácil. Na verdade, pode ser bem fodido – pardon my frenchNão porque haja assédio, nem porque as pessoas são desagradáveis, longe disso. Simplesmente, se são mulheres no Irão vão ser bem conscientes disso, o que custa.

Para muitos homens, mesmo aqueles que nos abordavam na rua ou que nos recebiam em casa, as mulheres eram tratadas como seres secundários. Muitos homens ignoravam as minhas perguntas ou a minha presença. Houve um senhor que depois de meia hora de conversa amigável na rua, se recusou a apertar-me a mão, pois era “pecado” na região dele! É preciso muito inspirar e expirar e tentar reconhecer (não sei se será o melhor verbo) que para muitos homens no Irão, este tratamento é sinal de respeito.

Além disso, ver outras mulheres sempre tapadas; ainda mais com aquele chador, que mais parece uma tenda; o constante negro que se passeia pelas ruas, mexe (muito) com a feminista que há dentro de cada uma.

Apesar de cada viagem ser única, acredito que uma mulher irá sempre sentir o Irão na pele, de uma forma diferente de um homem.

Muitas viajantes que conheci no Irão, diziam-me que passaram os primeiros dias (algumas, falavam em semanas) zangadas com o mundo (leia-se homens). Eu passei assim os primeiros dias. Inclusive discuti com o (meu) homem quando ele não levou o prato dele para a cozinha depois de comer. Nota, os donos da casa onde estávamos NUNCA o deixaram entrar na cozinha, nem para ir buscar um copo de água durante a nossa estadia!

Contudo, e como tudo, também há coisas boas. O bom de ser mulher é que rapidamente conseguimos entrar no mundo feminino – e não me refiro apenas à cozinha! A maior amizade que fizermos no Irão foi com uma mulher e isso só foi possível, porque ela veio falar comigo no autocarro.

5. O que vestir no Irão?

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o que vestir no irao: Os vários tipos de lenço

Quando se prepara uma viagem ao Irão, o tema da roupa é inevitável. Antes de ir, li muito sobre o país, onde se falava sobre uma nova geração, mais moderna e cool, inclusive na forma de se vestir. OK, isso existe, mas na capital e é gente com dinheiro. Além disso, as regras islâmicas continuam a ser lei e são para cumprir.

Quanto à maquilhagem, às estrangeiras recomenda-se descrição. Todavia, vão encontrar bastantes iranianas super-hiper-mega maquilhadas. Algumas parecem saídas de um show de travestismo, sobretudo na capital. Por norma, as iranianas usam vestidos em cima das calças e sapatilhas (Nike rules) ou então andam todas de negro.

A maioria das mulheres iranianas usa o hyab ou chador – e depois de verem uma mulher com um chador, entende-se, como dizia antes, que:

  • a) Aquilo não é prático;
  • b) Só um homem poderia conceber aquilo como “roupa feminina”.
    As mulheres não têm como o prender  ou fechar (basicamente é como se o Super-Homem tivesse uma capa, mas presa à cabeça, com um elástico). Agora, imaginem ter que andar com isto, transportar sacos ou ter que levar um bebé nos braços, assim vestidas. E claro, trabalhar. Acredito que muitas mulheres que se “tapam” no Irão, o fazem porque não querem problemas. E, acredito, que uma revolução esteja para breve – aliás, já começou!

Na prática:

Aos viajantes exige-se roupa larga (nada que revele as curvas) e um lenço, de forma a tapar o cabelo e o pescoço. Os homens podem ir como querem, mas é de evitar calções.

Os iranianos são bastante indulgentes com os estrangeiros, especialmente quando o lenço cai – e ele cai muitas vezes. Entre mulheres é também comum uma troca de sorrisos solidária.
Uma vez, o meu lenço caiu e revelava um pouco das minhas costas. Uma iraniana muito educadamente, aproximou-se de mim e, depois de beijar a mão dela, deu-me umas (delicadas) palmadinhas na parte destapada.

O meu maior arrependimento no Irão

Quando viajei para o Irão tinha pouco conhecimento e engoli muito destas regras de vestimenta como um “aspecto cultural”. Não é, muitas mulheres iranianas não querem, nem gostam de usar lenço. Aliás, no meu voo de Istambul para Teerão contavam-se pelos dedos as que iam tapadas. Assim que o voo estava para aterrar, todas colocaram lenço. Obviamente que viajar pelo Irão sem lenço, é impensável. Contudo, lamento ter-me preocupado mais com o tema do que aquilo que devia. Tinha comigo lenços mais coloridos e nunca os usei, porque no Irão a cor parece quase ofensiva. Se soubesse o que sei hoje, à quarta-feira teria usado lenço branco, como protesto simbólico ao uso obrigatório do lenço. Como disse antes, também teria respondido mais! Muito mais!

Para saberem mais sobre a luta das iranianas pelos Direitos da Mulher no Irão, recomendo-vos a página de Facebook My stealthy freedom

6. Como são os iranianos?

Normais. Têm dois olhos, um nariz e uma boca e são o melhor do Irão!
A verdade é que os iranianos são bastante acolhedores e gentis. Eram constantes os “hello” ou “Welcome to Iran” que nos gritavam na rua e muita gente parava para nos perguntar de onde éramos. Infelizmente, na actualidade, não são muitos os que falem inglês. Isto, porque o inglês foi banido e não se ensina na escola. Todavia, isso não significa que mesmo sem saber inglês não tentem comunicar. Muitas das conversas acabavam por converter-se em longos monólogos em farsi, connosco a sorrir e a acenar com a cabeça!
Os iranianos com quem falámos eram muito curiosos, queriam saber porque estávamos ali e qual a imagem do país no exterior. Preparem-se também para muitas conversas sobre o Islão – não eles não querem converter ninguém, mas a construção da identidade iraniana é feita em prol da religião e não da história ou da cultura do país!

7. Transportes no Irão: Como viajar?

  • Viajar dentro do Irão

Embora existam voos internos, eu não usei. Viajei sempre de autocarro e de comboio.

  • No caso do comboio, há que comprar os bilhetes com alguma antecedência. Se forem fazer a viagem noturna, saibam que podem ir em vagões com cama/beliche. Nos comboios iranianos, há carruagens mistas, mas existem outras, apenas para mulheres.
  • Quanto aos autocarros são bem, bem baratos e ainda mais espaçosos, com direito a snacks durante a viagem. No Irão, a qualidade das estradas é muito boa. 
  • Viajar dentro das cidades

Relativamente aos transportes públicos dentro das cidades, apenas Teerão tem metro – e recomenda-se.

Como os autocarros andam sempre cheios e o trânsito é caótico (sorte e muita coragem na hora de atravessar a rua). Quer nos autocarros, quer no metro existe uma separação entre homens e mulheres. Pelo menos, na teoria,
No autocarro, elas devem entrar e sair por trás. Na hora de pagar o bilhete é o momento do ridículo, pois há que descer pela porta de trás, para depois a voltar a subir pela da frente e pagar. Porém, se há lugares vagos na parte masculina, as mulheres sentam-se sem grande problema e vice-versa.
No metro, em Tecerão, é como se nem houvesse divisão e todos se misturam!

Quer o autocarro, quer o metro, ambos são bem baratos – cerca de 0,15 cêntimos o bilhete.

Os táxis também são bastante populares – e há vários, brancos, amarelos, verdes, velhos, novos e a cair de podre. Um conselho: combinar sempre o preço primeiro. Por norma, aos turistas, os taxistas cobram mais do que aos Iranianos, contudo nada de obsceno.

8. COUCHSURFING no Irão?SIM OU NÃO? SIM!

Sim e não seria a minha resposta e para que entendam melhor, aqui ficam as minhas histórias.
A primeira experiência foi em Shiraz e foi fantástica. Era um família (avó, tias e até vizinhos), com duas filhas pequenas, com quem jantávamos todos os dias (sim, cozinhavam para nós, sem cobrar) conversávamos e jogávamos cartas e mikado. Fomos muito bem tratados e tínhamos total liberdade. No dia em que tivemos de ir, foi bastante triste deixá-los.
Já em Esfahan, a experiência foi menos positiva. O nosso anfitrião tinha todo um plano para nós, querendo acompanhar-nos para todo o lado e não nos dava espaço para fazermos o que queríamos. Além disso, insistia para que fizéssemos actividades com a família dele (mulher e sogros), quando só ele falava inglês e… apenas falava com o meu namorado.

A verdade é que o couchsurfing, além de uma boa forma de poupar dinheiro em viagem, é também o meio ideal para conhecer locais e saber mais sobre como vivem, ainda mais numa país com uma cultura tão fechada como o Irão. E acreditem: o que falta de cor e dinamismo nas ruas, há dentro de casa!
Apesar de ter vivido uma experiência menos positiva, eu recomendo. O melhor será sempre ler atentamente todas as opiniões sobre o anfitrião e no pedido, deixar bem claro que tipo de viajante são e o que esperam da vossa estadia.

9. Comida iraniana

especiaria-afrodisiaca

Sinceramente, não se come mal, mas a comida está longe de ser espectacular. Sobretudo, é limitada, em termos de opções. Muito kebab e muito arroz. Muito açafrão. Mesmo em casa, a ementa não varia muito, sendo também os guisados/ensopados comuns.

Boas, boas são as sopas. A minha favorita era uma de limão, bem particular e deliciosa. Contudo o melhor, para mim, era o queijo. Branquinho, meio salgado e fácil de untar. Uma delícia da qual já sinto muitas saudades. Há também muitos sumos naturais (laranja, romã, banana, etc.) a óptimos preços e chá. Muito, muito chá.

10. Conseguir visto para o Irão

Cada nacionalidade é um caso e o melhor será sempre confirmar, pois as regras podem mudar com a realidade da política internacional. Nós fizemos o nosso através de uma agência em Madrid (foi esta a indicação da própria embaixada iraniana) e pagamos cerca de 50 euros. Isto funciona apenas como um “código de entrada”, um convite, depois no aeroporto há ainda que pagar taxas.

E cuidado, se têm um carimbo de Israel no passaporte, possivelmente não conseguir entrar no país.

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