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Viagem ao Irão durante o Ashura

A minha viagem ao Irão durante o Ashura

A razão pela qual vos quero falar sobre a minha viagem ao Irão durante o Ashura, foi porque quando fui em novembro de 2014, quando fiz a minha viagem, nem sabia o que era o Ashura. Isto, foi algo que só “aprendi” lá. Talvez seja por aí que deva começar: o que é o Ashura? Mas primeiro:

A diferença entre sunitas e xiitas.

Primeiro é preciso entender que há dois grupos de muçulmanos. Os sunitas, que são a maioria e que basicamente acreditam que depois de Maomé a coisa continuou com os califas.

Já os xiitas dizem que o genro e primo de Maomé, Ali foi o seu sucessor legítimo e consideram ilegítimos os três califas sunitas, que assumiram a liderança da comunidade muçulmana após a morte do profeta. No caso do Irão, a maioria da população é xiita e por isso, no país, celebra-se Ashura.

O que é o Ashura?

Bem, o Ashura diz respeito ao décimo dia do Moarrão no calendário islâmico. Neste dia, os xiitas assinalam o dia do martírio de Huceine ibne Ali, o neto de Maomé, na Batalha de Carbala, que ocorreu em 680

Detalhe: este dia, também é celebrado pelos sunitas, pois é tido como o dia que Moisés jejuou em gratidão a Deus pela liberação dos judeus do Egito.

O que foi a Batalha de Carbala?

Esta batalha ocorreu no Iraque e conta-se que neste dia, Ali e o seu regimento ia encontrar-se com os califas sunitas. Segundo os xiitas, ela ia em paz, mas acabou por ser duramente atacado e morto. Ele assim como os seus homens, mas também mulheres e crianças e, dizem, num verdadeiro banho de sangue e horror, sem piedade. Por esta razão, o Ashura é uma celebração, mas não de alegria, mas sim de luto, que marca a morte do último e legítimo profeta: Huceine ibne Ali.

Como se celebra a Ashura no Irão?

Uma vez que a maioria da população iraniana é xiita e que o Irão é uma república islâmica, obviamente que  Ashura tem uma ENORME importância no país. Podem contar com desfiles, muuuuuuuuita emissão de cerimónias religiosas na televisão, etc.

Dias antes do Ashura em si, começam as manifestações religiosas e de dia para dia, vai-se notando um crescente de intensidade e no êxtase. Nesta altura, é comum ver homens todos vestidos de preto e há uma enorme comoção no ar. Lembrem-se: é uma altura de luto, não uma festa. Como tal, não se espantem se virem choros, gritos, nem gente desesperada como se a própria vida estivesse em perigo ou a dos filhos. Muita gente sente e vive “a coisa” de forma bem intensa e pessoal.

O que podem os turistas esperar?

  • Nas ruas

Não se pode dizer que as ruas estejam decoradas, mas vão ver vários cartazes verdes pelas ruas. O que dizem? Buh! O meu farsi tem limites!

  • Tudo fechado

No dia do Ashura, tudo fecha (restaurantes, lojas, etc.). Isto aconteceu quando estava em Teerão e foi um vê-se-te-avias para conseguir comer. Tive sorte, porque no hotel um senhor trouxe-me comida da mesquita para me oferecer. Um fofinho.

  • Visitar a mesquita

A menos que vos convidem, na altura do Ashura, não é o melhor momento para visitar uma mesquita. Eu fui convidada duas vezes. Uma em Shiraz e outra em Yazd.

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Super estilosa na mesquita de Shiraz – que é LINDA por dentro

Em Shiraz, entrei com uma iraniana que meteu conversa comigo no autocarro e passou o dia comigo. Aqui, lá tive de vestir o chador, um lençol, para entrar. À saída, explicaram-me, uma multidão recriava o momento em que matavam as crianças que acompanhavam Ali, mesmo após ele implorar pela vida delas. Imaginem agora o meu espanto ao ver um bando de adultos, agarrados a crianças e a chorar, gritar desalmadamente, como se tal estivesse acontecer naquele momento. E, sim, este tipo de coisa é feito com frequência e passa na televisão.

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Desculpem a péssima qualidade da foto, mas era esta a vista da Ashura em Yazd, lá de cima

Já em Yazd, foi menos intenso. Convidaram-nos a entrar, mas íamos para uma espécie de bancada vip, onde podíamos ver de cima o que se passava na mesquita, sem participar ou interferir.

Para o Ashura, parece haver uma de coreografia que sugere que os homens se estão a autoflagelar de modo a honrar o sofrimento das vidas perdidas na batalha. Ver algo assim, ainda mais de cima, é TOTALMENTE surreal.

  • Desfiles na rua

Essa coreografia é também repetida em vários desfiles (de e para a mesquita) nas ruas das cidades. Nos desfiles, apenas os homens participam. Podem até ver alguns homens que usam uns nunchuks para se autoflagerem. Hoje em dia, disseram-nos, que já ninguém usa nunchuks a sério, dos que doem. São quase todos de plástico. Aliás, se os virem à venda em versão mini é para serem usados por crianças – meninos, obviamente! Sem palavras!

O sangue e o horror

Se procuram imagens do Ashura no Google, vão encontrar fotografias de sangue e cortes e coisas pouco agradáveis à vista. Sinceramente, no Irão não vi nada disso. É tudo (das lágrimas à autoflagelação) teatro puro. Disseram-nos que isso acontecia mais Carbala, no Iraque e mesmo assim, cada vez menos.

No fundo, é como a Páscoa. Em alguns países também há aqueles tolinhos que se deixam crucificar com pregos de verdade, certo?

Quando é o Ashura?

Uma vez que a data é definida pelo calendário islâmico, que é um calendário lunar, as datas mudam todos os anos. Quando eu fui, em 2014, foi em novembro. Se querem organizar uma viagem ao Irão durante o Ashura, confirmem sempre as datas. As próximas são:

  • Em 2019 será a 9 de setembro
  • Em 2020, a 28 de agosto

Vale a pena uma viagem ao Irão no Ashura?

Digo-vos já que esta é uma época beeeeeeem intensa. Tudo é dramatizado e vivido de forma por vezes bem extrema pelos iranianos (o choro, os gritos, o êxtase, etc.). Chega a um ponto é simplesmente demasiado. Recordo-me de estar à espera do autocarro para Esfahan e na televisão só passarem imagens da mesquita de homens e mulheres a descabelarem-se e de já não conseguir ver mais aquilo!

Ao mesmo tempo, é algo único mesmo. Acho que não há forma de descrever, só mesmo vendo e vivendo.

Viajar no Irão: 10 perguntas e 10 respostas

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