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Comer tartaruga no Camboja

Comer tartaruga no Camboja é possivelmente a refeição que mais me pesa na consciência, ainda assim é também uma das comidas que me recordo com mais carinho.

Sou pouco dada a moralismos e princípios tenho poucos, contudo em viagem, não dou dinheiro a crianças, porque acredito que mesmo fazendo diferença às famílias, lugar de criança é na escola.

Além disso, também não pago, nem participo em actividades com animais. Isto é montar elefantes, pagar para fazer festinhas a tigres ou tirar selfies com macacos.  Já aqui contei que comi muitas comidas estranhas, como porquinho da Índia numa viagem ao Peru, gafanhotos na Tailândia ou ovos de pato no Vietname. Contudo uma coisa é comer bichos que achamos fofinhos e que culturalmente, para nós, geram simpatia; outra é comer bichos ilegais.

Comer tartaruga é ilegal

E aqui o tema é este: acabar a comer tartaruga, significa comer algo ilegal. No Camboja, assim como em vários países, a caça é tartaruga é ilegal. Não apenas porque são fofas, mas sobretudo porque estão em extinção.

Em muitos locais da Ásia, mais do que um pitéu, acredita-se que a carne e os ovos tartaruga são ideais para quem quer viver mais tempo e, por isso, há tantos a comer tartaruga e caçadores furtivos que se dedicam a caçar este animal.

Camboja, agosto de 2012

Há anos atrás, estava eu no sul do Camboja e a vida era boa. Uma aldeia minúscula, com umas casinhas junto à praia, onde algumas disponham serviço de alojamento. Quando cheguei, não havia um quarto e fiquei a dormir no sótão, com um colchão no chão e uma ventoinha. A vida era francamente boa: praia a toda a hora, com mergulhos à meia-noite; sestas; boa comida; brincar com o cão (que me comeu uma sapatilha); ajudar a sobrinha do dono com os trabalhos de casa de inglês, tagarelaice na cozinha e brincar com os miúdos.

No último dia dia, o dono convidou-me a mim e a duas meninas mais, para irmos jantar à cidade. Lá fui eu à mochila buscar por algo um pouco mais limpo e fui.

Assim que chegámos, fomos levados para as traseiras do restaurante, onde umas casinhas de cimento estavam anexadas. Cada casinha era na verdade uma sala, com mesa e cadeiras. Tudo assim com um ar muito clandestino!

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Comer uma tartaruga, aliás duas

No menu? Carne de crocodilo, tartaruga, búfalo e ainda um “desculpem, mas não temos cobra!”

Oh Jesus! Oh Buda! Oh Ala! Ali, estava eu, prontinha para comer, tudo aquilo que eu sabia que não se podia comer, porque era ilegal sequer de ser caçado.

Ali estavam na minha mesa, cozinhados, prontos para se comer, alguns dos animais em vias de extinção mais populares do Camboja. Obviamente que acabei a comer tartaruga.

Se comi? Comi.
Se gostei? Gostei.
Se disse alguma coisa? Não, pelo menos não na hora.

Primeiro, porque não quis ser indelicada.

Depois, porque foi educada a não reclamar da comida que me dão – ouvi muito “come e cala”.

Resumindo: aquele senhor levou-nos, orgulhosamente, ao “melhor restaurante” da terra, para comer as melhores iguarias locais. Como não comer?